SONU ACADÊMICO #17

Atualmente o cidadão europeu passa por um momento de perda de garantias. Direitos que antes eram financiados pelo estado agora devem ser patrocinados pelo indivíduo. O corte de gastos atingiu, inclusive, os organismos internacionais, como é o caso da Organização Mundial de Saúde, órgão mantido por repasses obrigatórios dos países membros da ONU, a quem é vinculada, e isso restringe a atuação do órgão no combate a doenças e na efetivação de projetos que visam salvar vidas mundialmente.

AS CONSEQUÊNCIAS DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL NO ÂMBITO DA SAÚDE



A tão falada crise econômica que o mundo atualmente enfrenta não é tão nova assim. Atualmente, estamos em uma nova fase de uma crise que teve como marco a quebra do banco Lehman Brothers, ainda em 2008, nos Estados Unidos. A instituição, com 158 anos à época, era considerada um dos maiores operadores de empréstimos a juros fixos de Wall Street e um dos maiores investidores no crédito chamado “subprime” – crédito esse de natureza imobiliária com alto risco de inadimplência. O grande problema principiou com o aumento da desconfiança na instituição, o que levou a enormes baixas contábeis, seguido do maior prejuízo líquido da história da instituição e, por fim, à queda no valor das ações da empresa, visto que as negociações para levantamento de fundos, que dariam garantias de solidez aos investidores, fracassaram.


O Lehman Brothers, entretanto, não foi a única instituição financeira a emprestar dinheiro demais a quem não poderia pagar. O governo, de modo a evitar um colapso, teve que interferir na economia, passando a injetar capitais em determinadas instituições para evitar uma recessão ainda mais aguda. Essa injeção de capitais significa apenas uma coisa: aumento nas despesas. Tal fato, em uma época de recessão da economia mundial, significou o aprofundamento do déficit público. É esse o gancho para a atual crise.


O principal fator de endividamento dos Estados foi justamente o dinheiro público empregado para resgatar as instituições bancárias. A esperança era de que, com a injeção de capital público nas instituições privadas, a economia mundial voltasse a crescer. Tal crescimento, entretanto, não foi grande o suficiente para compensar as perdas do governo. Enquanto em 2008 a crise era bancária, em 2011 ela passou a ser fiscal, dentro das receitas dos Estados.


Em 2013 o foco da crise não é mais nos Estados Unidos, mas na Europa. O fato é que a dívida pública dos Estados Unidos é em dólar e o país tem controle da emissão da própria moeda. O país tinha a prerrogativa de emitir mais moeda para saldar sua dívida, ainda que isso gerasse o aumento da inflação – tática essa utilizada não pela primeira vez no cenário mundial. Os países europeus, entretanto, têm suas dívidas em Euro e o órgão responsável pela emissão dessa moeda é o Banco Central Europeu. Cada país tem uma estrutura de dívida diferente, mas não tem poder de emitir moeda.


O problema na Europa, desde o início, foi a dívida pública, essa ainda decorrente das políticas adotadas para a implantação do Euro como moeda comum. Para conseguir auxílio do Fundo Monetário Internacional e da própria zona do euro, países como Portugal, Espanha e Grécia tem que adotar medidas de “austeridade fiscal”, enxugando ainda mais os gastos e aumentando a arrecadação por meio de impostos. A economia passa a ser o foco, tida como setor em recuperação, em detrimento de setores sociais, como educação e saúde, que são esquecidos em prol do que é considerado mais urgente.


Tais medidas, além de suprimirem ainda mais a economia, levam a um estado de insatisfação social decorrente dos cortes em gastos referentes aos setores anteriormente mencionados.


Atualmente o cidadão europeu passa por um momento de perda de garantias. Direitos que antes eram financiados pelo estado agora devem ser patrocinados pelo indivíduo. O corte de gastos atingiu, inclusive, os organismos internacionais, como é o caso da Organização Mundial de Saúde, órgão mantido por repasses obrigatórios dos países membros da ONU, a quem é vinculada, e isso restringe a atuação do órgão no combate a doenças e na efetivação de projetos que visam salvar vidas mundialmente.[1]


As mudanças ocasionadas por esse período de crise vão além dessas consequências, que foram apenas superficialmente colocadas. Os reflexos da crise podem ser percebidos também nas condições de vida das pessoas – aumento de estresse; diminuição da qualidade da alimentação; prejuízo na distribuição de medicamentos, principalmente aqueles importados. As condições sanitárias são deixadas de lado, e até mesmo as condições psíquicas das pessoas são afetadas[2], levando a uma analogia trágica, porém necessária: é preciso lembrar todos os suicídios que ocorreram quando da crise de 1929. Ademais, diminuem-se os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, configurando-se assim uma verdadeira estagnação de uma ascensão que para muitos parecia fruto de verdadeiro milagre, a exemplo do desenvolvimento de ações como o tratamento da tuberculose, a prevenção da AIDS e o tratamento de outras doenças infecciosas.


Na Grécia, por exemplo, aumentou a quantidade de infecções pelo vírus HIV, as taxas de suicídio também aumentaram, o número de pessoas aptas a receber benefícios por conta de doenças diminuiu entre 2007 e 2009, provavelmente devido a cortes nos gastos. Na África, na Europa e Ásia Central, o aumento no valor dos medicamentos importados é de até 30%.[3]


É imperioso notar que as perdas decorrentes dessa situação de crise e dessa mudança com relação à saúde não ficam restritas apenas à população diretamente, mas a todos, Estado e Sociedade, de forma direta e/ou indireta, de modo que é impossível falarmos hoje em dia de economia e não falarmos de garantias sociais, porque o equilíbrio entre esses dois setores deve ser estabelecido. Não se pode dar atenção a apenas um deles, pois saúde e desenvolvimento são os dois lados de uma mesma moeda.


Não adianta concretizar a recuperação da economia, após um trabalhoso processo, para uma população desgastada e enfraquecida que provavelmente não terá condições de manter a estabilidade econômica por muito tempo – o trabalho seria afetado, e a economia sofreria cada vez mais com a diminuição da participação financeira dos cidadãos na movimentação do setor.


Por outro lado, reconhece-se que não apenas de saúde viverá a sociedade, embora seja algo indispensável para que a engrenagem da coletividade continue funcionando como de costume. Conhecendo a necessidade de atenção para esses riscos, possibilidades de manter os investimentos na referida área deveriam ser buscadas para que não sejam verificados fortes prejuízos a setores que se configuram atualmente como essenciais ao Estado moderno.


Segundo Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial de Saúde:


“[...] uma abordagem verdadeiramente global para a recuperação econômica, que coloca vidas e meios de subsistência das pessoas em seu centro, significa que podemos emergir com sistemas que são mais fortes, mais eficientes e mais justos do que aqueles que estão atualmente sob uma ameaça tão séria”.[4]


Fala-se em crise da saúde pública, e, de fato, talvez seja esse o caminho que o mundo segue. Assumir que os sistemas de saúde passam por dificuldades seria o primeiro passo para que seja possível encontrar alternativas e soluções adequadas, pois não se podem ignorar os problemas econômicos enfrentados por muitos países e, no entanto, não é viável combater uma crise gerando outra.




Naiara Frota Teixeira

Natália Gomes de Oliveira

Diretoras do ECOSOC - SONU 2013[5]



[1] Quadros detalhados das contribuições recebidas pela OMS disponíveis em: e < http://www.who.int/about/resources_planning/A66_29add1-en.pdf>

[2] FARIA, Paula de. Saúde pública e crise: uma reflexão. Disponível em:

[3]KENTIKELENIS, Alexander et al. Health effects of financial crisis: omens of a Greek tragedy. Disponível em:

[4]Chan, Margaret. Impact of financial crisis on health: a truly global solution is needed. Declaração disponível em:

[5] ECOSOC - Conselho Econômico e Social das Nações Unidas será um dos comitês simulados na SONU 2013, dedicados aos estudantes de Ensino Médio. Durante os quatro dias de simulação, os participantes discutirão as seguintes temáticas: O impacto da corrupção pública na sociedade. Abordagens inovadoras e parcerias no combate à corrupção. / Avanços na promoção da saúde frente aos obstáculos ocasionados pela corrupção.