SONU ACADÊMICO #09

Ainda no século XIX, surgiu a Associated Press, primeira agência do continente americano, criada pelos jornais de Nova York que não queriam enviar repórteres para cobrir a Guerra Civil nos estados do sul. Eles utilizavam os jornalistas dos jornais locais sulistas como seus correspondentes[...]

COBERTURA INTERNACIONAL: O PAPEL DOS CORRESPONDENTES E ENVIADOS ESPECIAIS NAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS



Agências de notícias são empresas jornalísticas que têm como fim difundir notícias em veículos de comunicação diversos. A primeira agência surgiu em Paris, no século XIX, a Havas, criada por  Charles-Louis Havas. A Havas enviava as notícias por telegramas para os jornais, que pagavam pelo serviço. A Havas chegou a abrir uma filial em Londres, que mais tarde se tornou a Reuters, uma agência que existe até os dias de hoje. Já a Havas se tornou a France-Presse; as duas são agências muito influentes atualmente.


Ainda no século XIX, surgiu a Associated Press, primeira agência do continente americano, criada pelos jornais de Nova York que não queriam enviar repórteres para cobrir a Guerra Civil nos estados do sul. Eles utilizavam os jornalistas dos jornais locais sulistas como seus correspondentes. Em 1958 a AP se fundiu com a United Press e surgiu a United Press International, UPI.


No Brasil, a primeira agência, criada por Assis Chateubriand, grande pioneiro das comunicações no Brasil, foi a  Agência Meridional de Notícias, atual D.A. Press. Atualmente as duas principais agências de notícias são a Agência Brasil, criada nos anos 90, durante o governo  Collor, e a Folha Press, do Grupo Folha.


No tempo da Havas e da Associated Press as agências eram, em sua maioria, empresas de família que difundiam as notícias apenas traduzindo jornais internacionais e não investigando e apurando os fatos para dar "furos jornalísticos", como atualmente.


O desenvolvimento da tecnologia facilitou o trabalho das agências e o volume de circulação que elas são capazes de dar às suas notícias. Normalmente, as agências mantêm escritórios em várias cidades e países, com correspondentes em cada um deles, para facilitar a apuração e a redistribuição das notícias.


Há dois tipos de agências: as comercias (Reuters, France-Presse) que obtêm lucro da dissolução de notícias e as cooperativas (Associated Press, Folha Press) que são constituídas por vários órgãos de comunicação associados.


No contexto histórico, o prestígio e a responsabilidade dos correspondentes internacionais caminharam juntos em contínuo crescimento. Com os avanços tecnológicos e a rapidez no compartilhamento de informações, evidenciou-se a importância de produzir notícias que alcancem o mundo todo. A presença desses profissionais não é essencial para a existência de editorias internacionais, uma vez que a internet fornece fontes inesgotáveis de pesquisa e apuração, mas uma agência que produz material próprio e treina jornalistas para buscar informações in locu tende a adquirir material mais consistente, o que fortalece a credibilidade.


Muito se fala sobre esses repórteres, mas, afinal, qual a definição de correspondente internacional? Sem considerar detalhes específicos que variam entre agências e profissionais, podemos estabelecer que o correspondente internacional é o repórter que se encontra em uma nação estrangeira, produzindo conteúdo jornalístico sobre aquele país ou regiões vizinhas para determinada empresa. A definição de Albertino Aor da Cunha nos dá uma visão mais clara sobre o trabalho desses profissionais:


Felizmente, podemos sintetizar, no jornalismo moderno, como sendo realmente romântica a função de correspondente estrangeiro. É ele um jornalista com espaço suficiente para forjar sua individualidade, vivendo de sua própria atuação, em um ambiente cultural e social diverso do seu e disputado ao daquele costumeiramente experimentado em seu país, porém prestigiado pela emissora que representa no exterior. Infelizmente, para conseguir isso, se sacrifica, distante do convívio dos amigos que deixa, de seus hábitos culturais, vida social, família, alimentação e sua rotina. [1]


Além dessa definição, Cunha [2] divide os profissionais em duas categorias de acordo com a sua capacitação. Para ele, os correspondentes freelancers (contratados para um trabalho específico) são diferentes dos correspondentes profissionais. O que caracteriza uma especialização desses últimos é a formação adquirida em cursos, com a construção de uma técnica mais sólida, baseada na compreensão do contexto social, político e cultural dos povos.


Utilizando uma divisão ainda mais clara, podemos diferenciar duas categorias: enviado especial e correspondente internacional. O enviado especial não reside no país em que produz as matérias, mas viaja para o local com o intuito de cobrir pautas específicas (guerras, crises climáticas, conflitos políticos ou epidemias). Se for o caso, ele pode enviar uma única matéria para a redação, sem ter a necessidade de uma produção regular. Dependendo do acontecimento, o repórter pode passar poucos dias no país estrangeiro e retornar logo à sede. Já o correspondente internacional está fixado em outra nação e deve cobrir acontecimentos variados de toda a região. Como já existe esse caráter de regularidade, é possível manter contato com a imprensa local e identificar fontes estratégicas, que enriquecem o material apurado. Uma qualidade indispensável a esse profissional é o discernimento para escolher o que noticiar, uma vez que os fatos devem ter relevância tanto na cidade em que se encontra quanto em seu país de origem.


Para significar o diferencial da notícia, o trabalho do correspondente internacional deve estar envolvido pelo conhecimento de mundo que só pode ser adquirido por quem está presente naquela nação. Saber falar inglês é essencial (se for o caso, falar o idioma do próprio país é melhor ainda), conhecer pontos culturais e conversar com pessoas sobre assuntos diversos ajuda a entender a realidade de um lugar diferente, e é dessa perspectiva nova que o bom conteúdo jornalístico necessita para se destacar.


As especificidades que conduzem o campo do jornalismo e o comportamento dos jornalistas não podem ser negligenciadas ou relegadas a segundo plano. Para analisar determinado produto noticioso e entender com propriedade o trabalho de um jornalista, é imprescindível conhecer as diretrizes que norteiam o fazer jornalístico.


No que concerne ao conteúdo, independente deste ser destinado ao jornal impresso, à televisão ou à internet, há critérios definidos que vão embasar a escolha do que será ou não noticiado pelo veículo de comunicação. Os critérios de noticiabilidade facilitam a triagem da eminente quantidade de informação que chega diariamente às mãos dos jornalistas e justificam a escolha de fatos que merecem destaque em meio à infinidade de acontecimentos.


Mauro Wolf [3] estipulou seis critérios que orientam os jornalistas a decidir quais fatos serão alçados à notoriedade. São eles: atualidade, proximidade, intensidade, ineditismo, identificação social e identificação humana. Portanto, para ser veiculado, um fato precisa ser atual, tendo em vista que o jornalismo trabalha com a factualidade; deve ser intenso e inédito para angariar a atenção do público; precisa estar intimamente relacionado à realidade coletiva no que diz respeito à proximidade geográfica e aos assuntos de interesse geral; deve envolver temas e/ou pessoas relevantes que possam despertar curiosidade.


Apesar da existência de fatores e critérios que irão definir o valor-notícia de um fato, sabe-se que há outras peculiaridades do trabalho jornalístico que exercem forte influência no processo de escolha do que será noticiado. Há, no âmago dos veículos de comunicação, fatores que podem apresentar um poder coercitivo ainda maior no que tange às escolhas perpetradas pelo jornalista.


Interesses políticos e econômicos confundem-se, muitas vezes, com a própria linha editorial da empresa jornalística, o que incita o jornalista a selecionar fatos que vão ao encontro dos objetivos do veículo de comunicação. Cabe ao jornalista, portanto, agir de acordo com os princípios éticos que embasam a profissão para tentar driblar as inúmeras coerções que podem afetar a produção da notícia. Faz-se necessário, também, que o jornalista preste um serviço à sociedade tendo em vista valores como objetividade, imparcialidade e correção.


Ao treinar jornalistas para cobrir acontecimentos internacionais, o intuito dos noticiários é alcançar um modelo de jornalismo que não seja um mero reprodutor de informações de outras agências de notícias. A exigência de capacitação dos profissionais está à altura tanto da responsabilidade quanto do prestígio que os jornalistas carregam, já que a ampliação do conteúdo é uma forma de romper as barreiras geográficas, para deslocar a visão do olhar estrangeiro e se aproximar o máximo possível da realidade local.



Camila Magalhães Alves

Diego Pereira Sombra

Thamires Rodrigues de Oliveira

Secretários de Comunicação - SONU 2013 



[1] CUNHA, A.A. Telejornalismo. São Paulo, Atlas, 1990. 

[2] Idem, op. cit..

[3] WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa-Portugal: Editorial Presença, 1999.

[4] BRITTO, D.F. O papel do correspondente internacional na editoria exterior. Disponível em Acesso em 12/01/2013.

[5] ROSSI, C. Enviado especial: 25 anos ao redor do mundo. São Paulo: Senac, 1999.